Família "disfuncional" e figuras maternas/paternas fortes
Muitas pessoas desinformadas não conseguem imaginar a família formada por um casal lésbico como funcional. Para estes, a falta de uma tradicional figura materna ou paterna coloca em risco a formação das identidades de gênero e do caráter da criança. Alguns ainda acreditam que ser homossexual é um "problema psicológico", um defeito, e pais "defeituosos" não têm condições de criar e educar filhos saudáveis.
Sabemos que isso não é verdade. Nenhuma pesquisa científica séria prova que crianças criadas por um casal homossexual tenham mais ou menos problemas de qualquer tipo que as criadas por uma família tradicional formada por pai-e-mãe. A probabilidade de ser gay ou lésbica também não aumenta nesta situação (pense no inverso: seus pais eram héteros e mesmo assim você se descobriu homossexual). Mas mesmo assim, uma boa parte das pessoas considera que um casal homossexual é uma família disfuncional.
Você concorda com esta definição? É muito difícil para um casal feliz, maduro, assumido para o público ou não, que está construindo uma relação há anos, aceitar o rótulo de disfuncional. Não aceite! Afinal, "disfuncional" parece ser "algo que não funciona"; como usar esse rótulo para uma família que funciona? Muitos vão alegar que a falta de uma figura forte masculina e feminina é a causa desta disfunção... mas eu, pessoalmente, discordo. O que vemos com muita freqüência é a busca da figura materna ou paterna "faltante" fora de casa - os filhos de um casal gay podem procura-la numa avó, numa tia, numa professora, e os filhos de um casal lésbico podem encontra-la encontram em um parente do sexo masculino. Procurar essa figura fora de casa pode ser incomum, mas não tão raro quanto se pensa, mesmo em casais heterossexuais.
Precisamos lembrar que o fato de uma família ser composta por um homem e uma mulher heterossexuais não garante que esta seja uma família funcional. Este é um ponto que muitos legisladores, principalmente os de grupos religiosos, esquecem.
"Funcional", aqui, pode ser entendido como "o que funciona". E um casal maduro e amoroso que resolve ter um filho, biológico (de uma das parceiras) ou adotivo, é uma família que funciona.
Uma coisa para fazer: participe de qualquer movimentação política ou protesto no sentido de garantir legalmente o direto a um casal homossexual de adotar uma criança ou obter fertilização in vitro, mesmo que você e sua parceira ou parceiro não pensem nisso agora. Abaixos-assinados, e-mails, cartas, passeatas, o que estiver ao seu alcance. Agora você pode não querer uma criança, mas o que garante que você não estará pronta para isso daqui a uns anos? E quando essa hora chegar, o que vai acontecer se houver uma proibição formal?
Uma coisa para não fazer: não coloque seu sonho de ter um filho de lado simplesmente porque é lésbica. Não deixe ninguém convencê-las de que vocês duas (e a criança que virá) não são uma família saudável! Você sabe muito bem que isto não é um problema de saúde, uma doença psicológica, uma paranóia. É apenas sua orientação sexual! Você continua sendo mulher e tem todas as "ferramentas" para gerar e criar com muito amor uma criança. Converse com a sua parceira sobre os métodos que vocês podem usar (proveta, adoção, a "ajudinha" de um amigo homem, etc), avaliem bem os prós e contras e sigam em frente.
Alessandra C. Picoli, 29, é jornalista. Escreveu sobre temas diversos no blog "Vida de Redatora" e sobre feminismo na coluna "Sutiãs em chamas" (www.revistaparadoxo.com).
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