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Muito se ouve falar que os homens enxergam-se como bando e as mulheres, individualmente. Por que não aproveitar o "espírito de corporação" que os homens utilizaram para se fortalecer desde o início do patriarcado para fortalecer as relações entre as mulheres? Mães e filhas podem se beneficiar de uma série de atividades coletivas para formarem ou afinarem a sua visão do feminino. A seguir, sugerimos algumas atividades em grupo para estimular a formação de um caráter saudável e uma identidade de gênero consciente, não estereotipada:
- Esportes ao ar livre: individuais (como ciclismo, sempre acompanhados da mãe, claro), em duplas (artes marciais, por exemplo) ou em grupo (futebol, vôlei, queimada, etc), favorecem a consciência corporal e a socialização. Os benefícios do esporte moderado para a saúde já são conhecidos, mas os benefícios no processo de socialização podem ser considerados ainda mais importantes na adolescência e início da idade adulta.
- Grupos de teatro: a chance de experimentar outras vivências é valiosíssima. Se o grupo for apenas de mulheres, ainda melhor, pois provavelmente terão que interpretar papéis masculinos (como os antigos atores gregos que representavam mulheres), o que pode contribuir muito para as concepções do que é feminino ou masculino.
- Salão de beleza/ cabeleireiro/ manicure: muito cuidado na hora de escolher um destes como o programa favorito e único das duas. Há a parte boa do relaxamento, dos "rituais" que aproximam as mulheres e as fazem se sentir parte de um grupo... mas também existe a paranóia com a obrigação da perfeição física. Aproveite apenas a parte boa com a sua menina.
- Cozinha: se a sua filha mostra algum interesse e você tiver habilidade, brinque de "cientista" na cozinha com ela. Não é uma atividade recomendada apenas para meninas, meninos também se divertem muito. Convidem pessoas do círculo de amizades de vocês para comerem o resultado das suas experiências - e em outra oportunidade, troquem os papéis de anfitriãs e convidados. Mostre como as coisas mudam de estado, como se misturam, como o sabor de um ingrediente afeta o resultado final. Há muito de alquimia na cozinha e ela costuma despertar a curiosidade por processos físico-químicos nas crianças mais curiosas. Além do mais, transformar o processo de preparar alimentos em algo divertido e especial destrói a obrigação, tira o "fardo" que a cozinha trivial representou para as mulheres das gerações anteriores.
- Celebrações místicas: caso a sua visão de espiritualidade seja compatível e haja interesse em conhecer outras religiões, recomende que suas meninas participem de "círculos de bruxas" ou celebrações wiccans voltadas unicamente para mulheres. Elas apresentam uma visão muito diferente de religiosidade centrada na natureza e na capacidade criadora da mulher, o que é diametralmente oposta à visão do Deus-homem a que estamos acostumadas. A intenção não é doutrinar alguém, mas apresentar um sistema religioso com regras diferentes das que consideramos usuais.
Não importa o que vocês vão fazer, o importante é não se isolar do mundo. Tenha contato com outras pessoas, e não tenha medo de freqüentar grupos apenas de mulheres (há quem tenha preconceito de fazer parte apenas de "clubes da luluzinha"). É bom para a formação de uma criança entender a dinâmica de diferentes grupos sociais e conseguir identificar-se com pessoas do mesmo sexo. Os homens já sabem disso e nós, que não somos burras, aprendemos: unidas somos mais fortes.
Uma coisa para fazer: não custa nada repetir o que você já sabe - o que vale é a qualidade do tempo que você passa com a sua filha, não a quantidade. Se você não tem muitas oportunidades de curtir um passeio, trate cada minuto com um evento especial importantíssimo. Sua filha vai perceber.
Uma coisa para não fazer: evite fazer apenas os tradicionais programas "de mulherzinha", como sair às compras ou ir ao salão de beleza. Varie um pouco e tente desvincular a atenção que você dá à menina do consumismo ou da vaidade pura e simples.
Alessandra C. Picoli, 29, é jornalista. Escreveu sobre temas diversos no blog "Vida de Redatora" e sobre feminismo na coluna "Sutiãs em chamas" (www.revistaparadoxo.com).
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