Afinal, o que eu posso fazer?
Falamos muito sobre a não existência do determinismo biológico em muitas características que o senso comum considera como "naturais" (como a docilidade feminina, o incondicional amor de mãe, a habilidade para realizar certas tarefas, por exemplo). Temos fortes indícios que apontam que estas não são características genéticas, são culturais, e a família influi positiva ou negativamente para o seu desenvolvimento, independente do sexo da criança. E, após uma análise um pouco mais cuidadosa, chegamos à conclusão que também não é apenas a criação, o núcleo familiar, que determina o "sucesso" ou "fracasso" na educação de um ser humano - a sociedade como um todo, a mídia, os meios de produção, tudo isso também tem uma enorme importância, talvez ainda mais decisiva do que o núcleo familiar.
Às vezes, fica uma impressão de que não podemos mudar nada que a sociedade imponha como regra para nossos filhos, por mais que lutemos! Não é verdade. Não podemos influir no temperamento dos nossos filhos, mas podemos e devemos contribuir para a construção de um bom caráter para que sua personalidade se desenvolva de forma sadia e ética. Está confusa sobre o que significa cada um desses termos?
- Temperamento: é como uma pessoa reage individualmente aos estímulos psicossociais. Aqui você não pode fazer nada, o temperamento é determinado geneticamente. É algo herdado, não adquirido e sem senso moral (não há certo ou errado, melhor ou pior). Para Hipócrates existiam quatro tipos de temperamento: colérico, sanguíneo, fleumático e melancólico, e esta divisão ainda é usada como base para algumas teorias.
- Caráter: são todas as qualidades psíquicas adquiridas que motivam e direcionam as condutas humanas. É onde você pode influir, e muito, pois é uma característica adquirida. É o que determina o valor de uma pessoa, se ela é "boa" ou "má".
- Consciência: é a compreensão do valor das condutas humanas. É o senso ético, o conjunto do que é "certo" ou "errado" e traz a necessidade do ser humano prestar contas a si próprio acerca de seus atos. O seu sistema de valores vai ajudar a criar a consciência da sua criança, mas não é garantido que ela absorva todo ele sem questionar. Criança não é esponja, ela pode (e deve) analisar e questionar tudo!
- Personalidade: é o conjunto de todas as qualidades psíquicas, adquiridas ou herdadas, que tornam seu filho ou filha uma pessoa única, ímpar. Você tem muita influência nesta parte!
Como você pode perceber, não são apenas "entidades abstratas" como a genética e a sociedade (sim, sempre esse "lobo mau" gigante e incontrolável) que vão criar a personalidade do seu filho. Você tem papel ativo! Você tem a chance de plantar a semente que germinará em um adulto bem resolvido e esclarecido. Mãos à obra!
Uma coisa para fazer: o auxílio de um analista ou psicólogo pode ser muito útil antes, durante e depois de se ter um filho. Tenha isso em mente. Viver é uma coisa muito complicada e toda ajuda é bem-vinda. Um bom profissional pode dar uma visão "de fora" valiosa para algumas questões do dia-a-dia.
Uma coisa para não fazer: filho não é massa de modelar amorfa e sem reação. Não espere que ele fique passivo e saia do jeitinho que você queria para não se frustrar. Você já ouviu antes e é verdade, não criamos filhos para nós, criamos para o mundo!
Alessandra C. Picoli, 29, é jornalista. Escreveu sobre temas diversos no blog "Vida de Redatora" e sobre feminismo na coluna "Sutiãs em chamas" (www.revistaparadoxo.com).
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