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Educação
Por Alessandra Picoli

Trabalhos manuais - coisa de mulher?

O currículo de algumas tradicionais escolas européias mantém disciplinas como trabalhos manuais, marcenaria e economia doméstica para ambos os sexos, sem distinção. É óbvio que não se deve generalizar, mas a mentalidade européia entende que homens e mulheres devem ser auto-suficientes. A idéia latina de que um homem precisa de uma mulher para pregar um botão na camisa e a mulher precisa de um homem para trocar as lâmpadas não existe. Portanto, a educação formal deve, segundo esta visão, incluir a maioria das habilidades necessárias para a auto-suficiência de um adulto.

Infelizmente esta não é a visão da maioria do mundo, Brasil incluso. Durante séculos, a educação formal das meninas - quando esta existiu - incluiu com grande destaque uma série de disciplinas com trabalhos manuais de repetição, como bordado, tricô e crochê. Algumas destas matérias podem ser classificadas como "preparatórias para o casamento", o que era usual até há algumas décadas, mas normalmente a explicação para a existência destas disciplinas voltadas apenas para garotas é "biológica". Os trabalhos ditos "pesados", como carpintaria e construção, não seriam "adequados" para o físico e índole feminina, supostamente mais adequadas a trabalhos minuciosos e de paciência. BordadeirAs e carpinteirOs em potencial, é isso que esperava-se dos jovens.

De fato, algumas diferenças biológicas entre os gêneros apontam para uma confirmação deste estereótipo. Maior massa muscular e senso espacial para os homens, mãos menores e maior capacidade de distinção de cores são apenas algumas dos indícios que poderiam justificar esta escolha "natural". Mas, na visão desta coluna e de alguns educadores progressistas, este tipo de diferença biológica não é determinante. Homens e mulheres continuam biologicamente diferentes, sim, mas isso não deve se refletir em uma diferença de oportunidades criada artificialmente por um modelo cultural patriarcal. Em um tempo em que quase todas as diferenças de potencial entre os gêneros podem ser superadas pela oferta de oportunidades iguais, acreditamos que a insistência neste modelo antigo tem outras intenções.

A insistência na manutenção dos trabalhos manuais nos currículos de algumas escolas femininas (sim, elas ainda existem) parece bater bem outras teclas. A garota "prendada", que sabe costurar, bordar, tricotar e cozinhar devota toda sua atenção para estas funções cotidianas e repetitivas. Nossas mães já falavam, "trabalho de casa não termina nunca". E é este o ponto - às meninas são designados os trabalhos de Penélope, os que não terminam nunca. Isso drena toda sua energia e atenção para estas funções "menos importantes", deixando a política, a atuação social, as pesquisas, as realizações para os homens. Ainda que algumas dessas habilidades sejam fundamentais para a manutenção de uma casa, são consideradas menos importantes. Ou seja, durante muitos séculos essa foi uma pequena peça no quebra-cabeças que manteve as mulheres em segundo plano.

Mas não se assuste com esta visão radical, muito condensada para caber neste artigo. Os trabalhos manuais não são os vilões incontestáveis na educação das meninas. A determinação de que eles são "trabalho de mulher" e a obrigação moral de que elas os aprendam é que é. Bom senso é fundamental. Mas isso é coisa para você discutir com a sua parceira.

Uma coisa para fazer: se sua filha ou filho mostrar interesse em aprender tricô, por exemplo, alimente esta curiosidade. É um trabalho gratificante para uma criança, que vê um fio transformar-se em peça útil. Desenvolve a coordenação motora e destreza e é uma boa oportunidade para se apresentar para a criança um tipo de saber tradicional, transmitido oralmente há gerações. Contextualize, sempre.

Uma coisa para não fazer: não censure seu filho homem se ele estiver interessado no que tem na sua caixa de costura. Não pense que por isso ele se tornará estilista ou que isso é influência dos seus amigos homossexuais. Se você ou sua parceira costuram em casa, é mais do que natural que ele mostre interesse. Repito, não o censure, seja com palavras ou com gestos (muito difícil de perceber) - ele pode crescer achando que esta é mais uma das "coisas de mulher" que homens não devem fazer e, cá entre nós, isso de "coisa de mulher" ou "coisa de homem" é um conceito muito ultrapassado.

Alessandra C. Picoli, 29, é jornalista. Escreveu sobre temas diversos no blog "Vida de Redatora" e sobre feminismo na coluna "Sutiãs em chamas" (www.revistaparadoxo.com).

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