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Educação
Por Alessandra Picoli

Profissão de mulher

Hoje em dia ouve-se muito que "as mulheres estão invadindo as profissões tipicamente masculinas" e que "os homens estão perdendo campo para as mulheres". Aviadoras, jornalistas, médicas, engenheiras, farmacêuticas, atletas, policiais - profissões que antes eram tipicamente masculinas agora têm em seus quadros uma maioria inequívoca de mulheres. E os homens, timidamente, "infiltram-se" em profissões antes consideradas 100% femininas, como enfermagem, secretariado, magistério. O que acontece? As mulheres estão mesmo passando por cima dos homens na hora de escolher as profissões?

A nossa teoria é de que a "invasão" feminina em alguns campos está intimamente relacionada com a desvalorização destas profissões. Podemos dar como exemplo a tradicional divisão dos sexos no ensino: no ensino infantil e fundamental (salários muito baixos), as mulheres ocupam perto de 100% das vagas; no ensino médio (salários melhores), a presença masculina começa a aparecer em certas disciplinas, mas ainda não é maioria; no ensino superior e nas pós-graduações (salários razoáveis, se comparados com a educação infantil), a maioria ainda é de homens.

A "invasão" feminina no jornalismo, que começou há aproximadamente 20 anos, foi acompanhada de perto pela desvalorização destes profissionais nas redações, onde uma pessoa tem que fazer o trabalho de outras cinco, sem horário fixo e em sua grande maioria, sem carteira assinada. Supõe-se - e os números parecem confirmar - que as mulheres se dispõem a fazer mais trabalho, em menos tempo e recebendo menos que os homens; por isso elas são uma alternativa viável para mercados altamente competitivos como o da comunicação. Vale ressaltar que das grandes redações do jornalismo impresso, radiofônico ou televisivo, apenas um décimo ou menos são chefiadas por mulheres. No resto do mundo, os números são parecidos.

A relação que se pode fazer é direta: profissão menos prestigiada, menor salário, mais competição, maior quantidade de trabalho por pessoa, menor atenção aos direitos trabalhistas equivale a "profissão de mulher". Quando essas variáveis deslocam-se para o outro oposto (profissão prestigiada, maior salário etc), a profissão é vista como "muito difícil" para as mulheres e acaba se configurando na percepção popular como "profissão de homem".

(É importante lembrar que o excesso de mulheres no mercado em busca destas profissões que hoje estão desvalorizadas não é a causa desta desvalorização. É a conseqüência direta de uma série de fatores econômicos e sociais que diminuíram o poder econômico e aumentaram o fosso na distribuição de renda da população).

Estas são algumas informações importantes para se levar em conta na hora de orientar a escolha da carreira do seu filho ou filha. Tente ajudá-los a encaixar seus talentos e aptidões naturais em uma carreira do gosto deles, independente do seu prestígio ou não na sociedade ou da sua suposta adequação a um sexo ou outro. Profissionais bem-resolvidos em relação a carreira têm muito mais chances de serem bem sucedidos, mesmo em uma economia confusa como a nossa.

Uma coisa para fazer: por mais concorrida que seja uma profissão, ela não é impossível ou inviável, mas tenha expectativas realistas. Esteja preparada para ajudar no sustento dos filhos até um pouco mais tarde, principalmente se eles escolherem profissões "complicadas" como medicina (cujo ingresso na faculdade é concorridíssimo e a formação, demorada) ou cinema (cujo mercado de trabalho é pequeno e a oferta de profissionais, enorme).

Uma coisa para não fazer: profissão "de homem", profissão "de mulher", isso não existe mais! Aliás, nunca existiu, mas os costumes já foram outros, uma médica ou engenheira causavam tanto estranhamento quanto um enfermeiro ou recepcionista. Não deixe esta história se repetir no futuro, não reforce essa diferenciação artificial na cabeça dos seus filhos.

Alessandra C. Picoli, 29, é jornalista. Escreveu sobre temas diversos no blog "Vida de Redatora" e sobre feminismo na coluna "Sutiãs em chamas" (www.revistaparadoxo.com).

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