Existem conceitos sexistas "do bem"?
Estamos habituadas falar sobre racismo, mas sexismo é um termo que não nos é muito familiar. Trata-se de todo e qualquer idéia, teoria, crença ou opinião que sustente a superioridade ou vantagem de um sexo sobre o outro. Já ouvimos todo tipo de absurdo usado para justificar as supostas vantagens dos homens sobre as mulheres; mas e quanto aos absurdos propagados para engrandecer supostas vantagens femininas? Não caia neste erro na hora de educar seus filhos.
Alguns dos erros tradicionais na concepção da identidade masculina e feminina que você pode discutir com eles:
- Mulheres são naturalmente mais pacientes/ perseverantes. Será que é verdade? Será que isso tem a ver com o cromossomo X ou com a criação das meninas? Perseverância nem sempre é uma característica nata, é algo desenvolvido como defesa para as dificuldades encontradas. E de dificuldades as mulheres entendem!
- Mulheres são mais capazes de realizar mais de uma tarefa por vez (multitarefa). De novo, a pergunta - elas são multitarefas porque são mais capazes ou são mais capazes porque são obrigadas socialmente a realizarem mais de uma coisa por vez? Sabemos que a entrada da mulher no mercado de trabalho formal não a desvinculou do trabalho doméstico. Será que não é a obrigação de ser mãe, profissional e amante que cria essa visão desta suposta "capacidade natural" de assumir mais responsabilidades ao mesmo tempo?
- Mulheres são mais delicadas. Bem, depende do que se considere como "delicadeza". Estamos falando de destreza manual? Ou simplesmente de bons modos? As mãos menores da maioria das mulheres provavelmente as privilegiariam em algum trabalho detalhista, mas a habilidade e controle das mãos não vêm necessariamente incluídos neste pacote. Já falamos em outro artigo sobre o mito da habilidade "natural" das mulheres para trabalhos repetitivos e detalhistas. Agora, bons modos não têm sexo! O que acontece é que as boas maneiras são muito mais valorizadas nas meninas que nos meninos, o que gera essa discrepância.
- mulheres são menos agressivas e não promovem guerras. Quem disse isso pela primeira vez não parece conhecer as fêmeas de alguns animais, que são ainda mais agressivas que os machos! Provavelmente nunca viram uma mulher com tensão pré-menstrual também. A maior agressividade está ligada, sim, a certos níveis de hormônios; mas estes hormônios também estão presentes nas mulheres em quantidades menores que nos homens. Algumas mulheres têm os níveis desses hormônios mais altos e são mais agressivas, o que não as torna mais ou menos femininas.
O importante, aqui, não é simplesmente "demolir" alguns conceitos. É discutir toda e qualquer generalização. Não adianta pular de um extremo (depreciação feminina) para outro (depreciação masculina). E mais importante, não adianta usar o mesmo tipo de argumento falho para justificar uma ou outra posição. Não é porque os fins são justos (valorização das mulheres, diminuição das desigualdades, etc) que os meios podem ser os mesmos!
Uma coisa para fazer: mostre aos seus filhos que generalizações são geralmente errôneas e sempre servem a um propósito. Isso não impede que alguns homens e mulheres, talvez até uma grande parte deles, corresponda aos estereótipos. Estimule-os a se perguntarem o porquê das coisas.
Uma coisa para não fazer: sem radicalismos! O importante é estimular a reflexão e análise das coisas, não passar a idéia de que "tudo está errado" ou gerar um monstrinho politicamente correto que policia toda e qualquer atitude de forma desmedida.
Alessandra C. Picoli, 29, é jornalista. Escreveu sobre temas diversos no blog "Vida de Redatora" e sobre feminismo na coluna "Sutiãs em chamas" (www.revistaparadoxo.com).
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