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Educação
Por Alessandra Picoli

Educação para o corpo - maternidade

Esta é mais uma das colunas voltada prioritariamente para quem tem filhas. Não gosto muito de fazer citações, mas quando uma autora utiliza palavras muito precisas, eu sinto quase uma obrigação em repeti-las. Vera Paiva (em "Evas, Marias, Liliths... as voltas do feminino", 1990) diz que "à exceção dos quatro imperativos biológicos... (o homem fecunda, a mulher menstrua, gesta e amamenta), as outras diferenças são construídas na relação do indivíduo com a cultura e a sociedade". A mulher gesta e amamenta, ponto. É uma das poucas funções genuinamente femininas que tem causa biológica. Mas o modo, a motivação, a função da mulher como mãe e nutriz, essas são culturalmente construídas.

Toda a educação tradicional da mulher está voltada para a maternidade. Mesmo que a mulher escolha não ter filhos, sua formação será norteada por este fim. E como a maternidade é considerada um dom sublime, quase mágico e de importância para a espécie humana, torna-se propriedade da humanidade como um todo, e não da própria mulher, que novamente é desvinculada do próprio corpo. Claro que muitos progressos foram feitos desde a invenção da pílula anticoncepcional, mas os recentes retrocessos em políticas públicas (proibição de distribuição de pílulas anticoncepcionais, anticoncepção de emergência ou diminuição de verbas para educação sexual em muitos países) nos fazem pensar que, infelizmente, as coisas não mudaram tanto quanto gostaríamos.

Sua filha precisa saber que as coisas não "são assim" porque "sempre foram assim". Ela é e sempre deve ser dona do seu corpo, da sua capacidade reprodutiva, da sua vontade ou não de ter filhos. Não deve "doar" seu corpo para as expectativas da sociedade. Isso significa não sofrer pressões para "desempenhar seu papel de mulher" e ter filhos, quando está com um parceiro ou parceira fixo (evite o "quando é que você vai me dar um netinho?" a todo custo) e ter acesso a métodos anticoncepcionais seguros também.

Cuidado com a culpa também! Muitas mulheres sublimam a culpa por não terem filhos "adotando" outras pessoas e tendo comportamentos tipicamente maternais com amigos, parceiros, parentes. Este "agir como mãe" não é, a meu ver, algo instintivo e natural, é uma construção (não confundir zelo com a prole com o romanceado "amor incondicional de mãe", que é um mito). Ajude na auto-análise da sua filha para que ela não seja a "mãezona" da turma por causa de uma culpa que já começa a se instalar; pode ser que este seja realmente um traço de personalidade dela, e é isto que você deve tentar identificar.

Cabe aqui também uma lembrança para quem tem meninos. Eles não podem ser criados para esperarem que suas parceiras tenham filhos como pré-requisito e "fim supremo" para toda relação entre duas pessoas. Ter ou não filhos é uma decisão muito mais complexa, que envolve muito mais fatores que simplesmente o "dever" e expectativa social.

A procriação é mais uma conseqüência da sexualidade, e não o contrário, como nos fizeram acreditar. A concepção moderna e esclarecida dos porquês e "para quês" procuramos prazer sexual apontam neste sentido. Não fazemos sexo porque um dia teremos que procriar; nós talvez um dia procriemos porque fazemos sexo. Parece uma inversão boba e dispensável, mas é muito importante, pois coloca a maternidade como uma escolha real (que deixa seres íntegros após ser feita ou não) e não como uma necessidade (que deixaria seres incompletos caso fosse deixada de lado).

Todas nós conhecemos mulheres que parecem "desesperadas" para ter filhos após uma certa idade; será que é mesmo o tal "relógio biológico" apitando ou o peso das pressões sociais caindo sobre seus ombros? Cabe a você diminuir este peso nos ombros da sua filha.

Uma coisa para fazer: apóie políticas públicas e leis que permitam a posse do próprio corpo às mulheres. Isto não significa que devem ser a favor do aborto, mas as melhores propostas geralmente incluem este ponto em uma série de medidas e recursos que as mulheres podem ter à sua disposição para aplicarem em seus próprios corpos. Estude bem as propostas dos políticos da sua região e os de âmbito federal, mas não deixe de se manifestar, contra ou a favor.

Uma coisa para não fazer: não perpetue ditos como o famoso "ser mãe é padecer no paraíso". Ser mãe não é um fardo que uma mulher deve carregar, é algo que ela pode escolher ou não e que, independente da decisão tomada, a tornará uma mulher completa.

Alessandra C. Picoli, 29, é jornalista. Escreveu sobre temas diversos no blog "Vida de Redatora" e sobre feminismo na coluna "Sutiãs em chamas" (www.revistaparadoxo.com).

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