A utopia da "terra das mulheres"
Quando escreveu sua utopia feminista "A Terra das Mulheres" ("Herland", 1915), Charlotte Perkins Gilman imaginou um país onde mulheres isoladas de qualquer contato com homens acabaram conseguindo se reproduzir sem eles e construíram um paraíso onde a maior preocupação da sociedade era com a educação das crianças. Difícil dizer o que é mais inverossímil: se os nascimentos por partenogênese, o desaparecimento de qualquer desejo sexual (entre mulheres vivendo juntas por mais de dois mil anos) ou a possibilidade de uma educação sem conflitos. Esta última falácia, porém, é mais comum do que se pensa, e não se restringe a universos fictícios.
A educação sem escolas de Herland se baseia num universo onde a testosterona e o espírito de competição dos machos foram substituídos por valores ditos femininos. Assim, em lugar de esportes violentos, as crianças - todas meninas - entregam-se a jogos cooperativos para formar e desenvolver a mente. E assim descobrem naturalmente suas vocações, entre todas as possíveis na sociedade:
"Cada menina com quem falei (...) mostrava uma satisfeita determinação quanto ao que ia ser, quando crescesse".
O narrador, embasbacado, compara esse paraíso com a sociedade americana do início do século, em que homens eram (são) criados para lutar por sucesso e dinheiro, cabendo às mulheres as "atividades subordinadas da vida doméstica". E não demora para concluir a superioridade de Herland, nesse como em outros aspectos da vida.
Em colunas anteriores, já comentamos os prejuízos da distinção entre coisas-de-menino e coisas-de-menina. Mas a educação em Herland, por mais libertadora que pareça, faz algo talvez ainda pior: em vez de liberar o acesso da mulher ao mundo tradicionalmente masculino, renega-o quase em bloco.
E isso é uma perigosa armadilha. Principalmente por isolar um suposto componente da masculinidade, supor que seja totalmente ausente da mente feminina e definir esta última como o seu oposto. Ou seja: ser mulher significa ser um homem sublimado, libertado de seus aspectos negativos.
Parafraseando o ministro Gil nos seus tempos de compositor, a ilusão de que "o mundo feminino tudo me daria do que eu quisesse ter" é tão fatal para a Super-Mulher quanto o seu oposto era para o Super-Homem. Fora da utopia, no universo real, só é possível formar seres humanos equilibrados se forem completos, capazes de cooperar como homens e competir como mulheres - ou vice-versa.
Uma coisa para fazer: na hora de escolher a escola dos seus filhos, não siga o senso comum de quais escolas são boas ou ruins. Visite, pesquise com outras mães, converse com o diretor. Algumas "renomadas" instituições têm políticas discriminatórias que você não vai querer na educação da sua prole.
Uma coisa para não fazer: não assuma a defensiva em relação aos homens, homo ou heterossexuais. Mesmo em Herland elas não os discriminavam! Eles não são conscientemente culpados pelo sistema em que estão inseridos e coloca-los em um papel inferior não contribui em nada para a diminuição das desigualdades entre os sexos - pelo contrário, só criam novas adversidades.
Alessandra C. Picoli, 29, é jornalista. Escreveu sobre temas diversos no blog "Vida de Redatora" e sobre feminismo na coluna "Sutiãs em chamas" (www.revistaparadoxo.com).
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