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Uma rápida análise do Funk
Por Marília de Souza Lopes e Eliane Bispo Teixeira

"Vamos celebrar a estupidez humana.
A estupidez de todas as nações
O meu país com sua corja de assassinos
Covardes, estupradores e ladrões".
(Renato Russo)

Nunca pensamos que fosse tão complicado o preparo de uma matéria sobre os efeitos da massificação sobre o ser humano.
Nossa equipe buscava um assunto polêmico, que causasse forte impacto, e assim pudéssemos fazer com que as pessoas pensassem a respeito do atual modismo que entrou no cenário musical: a bunda (ou o leilão dela promovido pelo FUNK).
Foi interessante a nossa discussão, pois vimos quanta coisa surgiu sobre o tema abordado; claro que, após termos ouvido algumas pérolas desse movimento que utiliza a mulher como objeto, um mero receptáculo de esperma, o qual segue diretamente para o lixo após o uso, conseguimos chegar a algumas conclusões.
Letras degradantes, que classificam todas as mulheres como "cachorras", "potrancas", "popozudas" e outros adjetivos, são tocadas a todo volume nas rádios paulistas, e também nos programas de tevê, onde, além da pobre melodia, temos que aturar as coreografias cheias de bundas, tapinhas e tigrões.
O problema, e principal temática de discussão de nossa equipe, foi tentar descobrir por que as mulheres consentem e se submetem a esse tipo de situação.
A esse respeito, poucas conclusões foram encontradas, mas a pior a qual chegamos é de que foi o modelo patriarcal de família, desde seus primórdios, que propiciou esse tipo de "fenômeno de massa". Em sociedades assim "fabricadas", o papel feminino é sempre o da procriação e cuidados da casa.
Hoje, acreditamos, as coisas estão mudando, com mulheres evoluídas, lutando por igualdade, melhores posições e trabalhos; ainda assim estão sujeitas a todos os tipos de agressões possíveis e, acreditamos também, infelizmente, que as mulheres tão "emancipadas" também aceitam essa sujeição de serem meros bibelôs de procriação.
Algumas mazelas lingüísticas serão aqui reproduzidas para que você, leitora ou leitor, consiga perceber, exatamente, do que esse artigo está tratando:

"Venha me seduzir
Rebolando só pra mim
Com seu charme
Que Bundinha
Na moral"
(Lamba Funk)


"Ela vai na frente
E eu vou atrás
Remexe Mexe
Mexe e me satisfaz


Requebra aí danada
Requebra na Moral
Pra todos os pichadores
Desse baile passarem a mão"
(Danada)

"Ê Ô Parceiro
Cadê a tua mina
Foi te chifrar
Se você não for corno
Levante as mãos
Pode passar
(Todo o castigo para corno é pouco)"
(Boi Parceiro)

"Vacina de otário
É bala de AK*"
(sem nome)

Além do estímulo de tornar a mulher um mero objeto, essas músicas incitam a violência, pregando castigos e vacinas para os elementos não enquadrados nessa sociedade.
Devemos lembrar aqui que a sociedade em questão é o morro carioca, sociedade fechada, impregnada com o tráfico de drogas, onde o indivíduo do sexo masculino só se desenvolverá sendo menino de recado ou traficante, e as mulheres sendo objetos sexuais de traficantes e parideiras.
Infelizmente temos que receber esse tipo de marketing - degradante e abusivo - que nos é empurrado goela abaixo, até que essa moda seja substituída por outra.
Acreditamos que, pior do que essa, nenhuma outra poderá ser, pois, atacando diretamente a auto-estima da mulher, influirá não só no seu comportamento sexual, como também em todos os aspectos de sua vida (seja profissional, aceitando o assédio sexual como algo natural, seja afetivo, aceitando ser apenas o objeto de usufruto sexual de vários parceiros, sem receber amor e companheirismo em retorno), e, sendo assim, refletirá na educação que essa mulher dará aos filhos que vier a ter. Isso tanto é verdade que as crianças das favelas cariocas, já filhas de mulheres expostas a esse tipo de "moda" desde a adolescência (da qual mal saíram), acham absolutamente natural a entrada na hierarquia do tráfico de drogas como único modo de ascensão social.
Para o nosso alívio, pelo menos no tocante a São Paulo, essa cultura de submissão feminina não é, nem nunca foi, uma característica de nossa sociedade - marcada por figuras como Patrícia Galvão (Pagú) e Tarsila do Amaral. Até porque, em São Paulo, a forte industrialização, combinada com a chegada dos imigrantes estrangeiros e dos migrantes de outras regiões do País, sedentos por uma ascensão social e econômica realizada através do trabalho; a constante mutação territorial, concentrando a população mais pobre em um anel mantido ao extremo mais externo do centro urbano, e que, com seu crescimento, a empurra cada vez mais para fora, força a população, especialmente as mulheres, muitas vezes chefes de família, a buscar, a ferro e fogo, através do trabalho, a emancipação e o sustento.
Esperamos sinceramente que essa onda passe e que imagens como essas não sejam mais veiculadas em nosso meio.

* AK, corruptela para fuzil AK-47, equipamento de uso exclusivamente militar, que hoje é encontrado nos morros cariocas.

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