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Japonesas Animadas
Por Jessica Luchesi :: São Paulo, 08 de maio de 2001

Desde segunda-feira, dia 30 de abril passado, as tardes da Cartoon Network ganharam um tom todo especial para a comunidade GLS, e uma esperança em que as gerações que hoje vêem desenhos crescam menos preconceituosas.

Isso porque estreou a nova temporada de Sailor Moon ( na verdade a série "Sailor Moon S"), transmitida no canal Cartoon Network de segunda a sexta às 16:00, em que, além das Sailors de outras séries, temos duas novas personagens: Haruka Tennou e Michiru Kayou ( respectivamente Sailor Urano e Sailor Netuno ), que, depois de apresentadas ao público com uma misteriosa missão, vão passar de anti-heroínas a integrantes do grupo.

Haruka e Michiru, além de serem componentes centrais da trama que envolve a nova temporada, são lésbicas ( Haruka é o arquétipo da caminhoneira, vestindo ternos e dando voltas em sua moto para esfriar a cabeça, enquanto Michiko é uma violinista e artista plástica extremamente feminina), em um relacionamento mostrado cada vez mais abertamente a cada episódio ( está lá desde o começo pra quem quiser ver ), até que abertamente exporão isso às outras personagens ( e ao público ) mais ao fim da temporada.

Eu pessoalmente esperava a muito pela estréia dessa série no Brasil, sempre cercada de dúvidas de quão integral seria a tradução dos textos e se haveriam cortes nos episódios; foi uma ótima surpresa.
A série já havia sido transmitida em sua primeira fase pela extinta Rede Manchete, e agora a Cartoon Network mostra intenções de levar até o fim, sem cortes, todas as aventuras das Sailors, e o relacionamento de Haruka e Michiko.

Vale a pena conferir, mesmo para o público mais adulto, pela oportunidade de ver como podemos preparar um mundo melhor para as próximas gerações mostrando às crianças que não há motivos para preconceito, e fazendo com que a visão de casais homossexuais não seja aberrante, mas sim algo com que estejam acostumadas. E sempre vale como divertimento. 

Sailor Moon consegue manter um clima leve, divertido. Talvez as crianças imitem os golpes das heroínas emocionadamente, mas, para nós adultas, o desenho ganha outros tons... como as pétalas de rosa que sempre voam quando as duas entram em cena, os olhares trocados que congelam a câmera e trocam o cenário de fundo por mares de flores, os ataques coléricos de Haruka sempre que Michiru é atingida pelo demônio malvado, e os ataques de ciúme de Michiru contra Haruka, que galanteia todas as outras garotas do desenho.

Tudo vale nessa série que impressiona pela tranquilidade que trata do assunto, na medida certa, sem roteiristas chocados tentando ser corretos, sem compromissos forçados com minorias, sem a criança negra inserida em uma foto com trinta e duas crianças brancas e loiras.

Não que homossexualismo seja um tema novo na animação japonesa. Séries adultas há muito trazem personagens e heróis homossexuais.
"Ghost In The Shell" traz uma heroína ( a heroína principal da série ) cyborg lésbica, com direto a uma página cortada na versão quadrinizada americana, publicada pela Dark Horse Comics ( um dos baluartes dos quadrinhos independentes americanos ) por medo que a visão da personagem principal nua em meio a uma orgia lésbica de cybersex chocasse o pudico público americano ( essa é a única página em que fica clara a orientação da personagem, que é basicamente assexuada no resto da história. ). "Bubble Gum Crisis" também mostrou o envolvimento de duas das heroínas, na série para TV. E por último "Evangelion", ( transmitida no Brasil pelo canal Locomotion ) uma série extremanente adulta e depressiva, em que há o envolvimento de um dos heróis com um dos vilões, e no final, a declaração de amor da ajudante da cientista chefe da cidade pela mesma, no último capítulo da série, algo que esteve lá a série inteira, sem coragem para se pronunciar perante a frieza da amada, mas só pra quem sabe ver.

Só que Sailor Moon traz esse tema para quem pode se beneficiar mais de uma visão isenta: as crianças. E, junto com Sailor Moon, uma série mais recente, mas que está sendo transmitida há mais tempo no Brasil ( a transmissão começou juntamente com a primeira série de Sailor Moon, e só agora chegamos na série "S" ), "Sakura Card Captor", transmitida logo após "Sailor Moon S", onde há um casal gay masculino ( Toya, o irmão de Sakura, e Yukito, seu melhor amigo ). Em "Sakura", esse relacionamento é tão explícito quanto possível. Houve a cena de beijo, com um tom poético e vestida de uma carga de paixão e ternura, e em uma conversa com Sakura, Yukito diz que tem uma "Pessoa especial, que ama acima de tudo", e quando Sakura pergunta se é o seu irmão, Yukito diz que sim.
O resultado é um sorriso de Sakura, feliz, porque Yukito e seu irmão são muito amados por ela, e porque tenham achado a pessoa amada um no outro.

Perante isso, só podemos dizer que, o mundo está mudando. E, pouco a pouco, se ajustando a uma realidade maior, sem medos, preconceitos e ódio pelo que é diferente. Que nós é que fazemos o conceito de normalidade, e isso pode ser mudado, para melhor. Ainda bem que minhas filhas, quando eu as tiver, vão poder reconhecer sua realidade nas heroínas de desenhos da TV; e que suas amiguinhas não vão fazer cara feia quando as visitarem, e às suas duas mães :)

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