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A África, que sempre foi vista como o continente mais problemático do mundo, repleto de conflitos étnicos, fome, peste e extrema pobreza, acaba de acrescentar mais um problema sério a sua lista: a discriminação oficial por um governo de membros da sociedade por questões de orientação sexual. Isso apenas complica ainda mais a situação atual de um continente em rumo a um empobrecimento ainda mais extremo, e buscando de alguma forma sua viabilização. E lamentavelmente dá forças àqueles que acreditam que a África se tornou um prédio com as fundações ruídas, e que passou o momento em que reformas ainda surtiriam efeito, sendo a sua total destruição para a construção de algo novo sua única saída para a viabilidade.
Seguindo os moldes de outros líderes para a congregação da união nacional em torno do ódio, como visto na Segunda Grande Guerra, através do Holocausto, mas ao mesmo tempo inviabilizado de promulgar o expurgo étnico em uma nação composta de dezenas de etnias negras, o Presidente da Namíbia, Sam Nujoma, no dia 01 de Abril de 2001, declarou como seus inimigos oficiais em seu esforço unificador, os homossexuais de ambos os gêneros. Em um discurso realizado em Okahao, na região de Omusati, o presidente Nujoma re-enfatizou a mensagem deixada duas semanas antes na Universidade da Namíbia, de que homossexuais deveriam ser capturados, aprisionados e deportados da Namíbia. Nujoma apelou ao apoio dos Governadores Regionais, Conselheiros e líderes locais do norte, para que auxiliassem o governo central na identificação e captura de gays e lésbicas em suas regiões. Em suas próprias palavras, como visto na edição do jornal "The Namibian" de 2 de Abril de 2001, "...eles devem ser condenados por toda a nação e aprisionados" e "...Líderes Tradicionais, Governadores, certifiquem-se que não existam criminosos, gays e lésbicas em suas vilas e regiões...".
Notadamente no entanto, Nujoma não tem como seu único alvo as minorias homossexuais, mas um espectro mais largo de "influências perniciosas". Apenas a discriminação contra homossexuais chama mais atenção por se tratar de um flagrante atentado contra a sua própria Constituição Nacional e a Declaração de Direitos Humanos, que não possui distinções baseadas em orientação sexual ou racial, e cobre os direitos de cada ser humano no planeta. Na verdade, os esforços de Nujoma focam a unificação da Namíbia como "nação forte" contra inimigos internos e externos, que influenciam seu povo rumo ao enfraquecimento moral e social. Nesse tocante, estrangeiros também são tidos como indesejáveis em território nacional, mas as ameaças ainda estão no plano retórico, como as tocantes apelações de Nujoma para que os pais não permitam que suas "crianças" durmam com estrangeiros, para evitar a miscigenação racial e cultural. "Eu tenho filhos, e se ocorresse de minha criança vir a mim e me contar que está a se casar com um estrangeiro, eu aconselharei ela ou ele a não o fazê-lo.", ele diz, como na matéria "Round-Up Gays, Urges Nujoma", do jornal "The Namibian" de 2 de Abril de 2001. Vemos notadamente que, embora ele trate de pessoas adultas, ele implicitamente apela à "inocência natural a jovens namíbios". No entanto, estrangeiros são ainda apenas alvos de retórica e as nações estrangeiras são apenas acusadas pela "degradação homossexual" que "infecta" a Namíbia, enquanto a comunidade homossexual enfrenta uma situação real de ameaças diretas e, tendo esse mesmo governo e seus poderes membros como a única fonte possível de proteção, em um problema em que a única intervenção externa possível é uma via diplomática, pouco eficiente nesses casos.
O Presidente Nujoma não possui nenhum meio legal ante a Constituição Nacional de seu país, mas continua a atacar diretamente a comunidade homossexual. A comunidade de gays e lésbicas é acusada por ele a como principal fonte da disseminação do vírus HIV e da AIDS no território da Namíbia, e que a nação deveria retornar aos moldes tradicionais da família como único meio de resguardar seus filhos dessa peste que cresce em meio a sua população. Suas ameaças são patentemente anticonstitucionais e sem qualquer base legal. A Constituição da Namíbia protege os direitos e dignidade de todas as pessoas na Namíbia, e em nenhum momento condena o homossexualismo. Nenhuma lei existe que proíba o homossexualismo na Namíbia. Ou dá a Nujoma os direitos que alega ter dando tais declarações. Mas mesmo diante da ilegalidade de seus atos, o presidente Nujoma aparenta ter a disposição de cumprir suas ameaças de forma cruel, como nos piores exemplos da História. Provavelmente nenhuma lésbica será vista deportada da Namíbia, uma vez que o Ministro de Assuntos Internos do governo de Nujoma, Ministro Jerry Ekandjo, ano passado instruiu novos recrutas da polícia em Ondangwa a "eliminar" gays e lésbicas, cuja conduta é comparada a "atos inumanos" como o assassinato "da face da Namíbia", sendo as partes entre aspas realmente parte de seu discurso, como indicado no jornal "The Namibian" de 20 de março de 2001. Em novembro de 1998 Ekandjo já havia declarado que a Assembléia Nacional teria agendado discussões sobre o combate a homossexualidade.
Embora a Namíbia tenha ganho destaque recentemente pelas ações de seu presidente, atos semelhantes estão sendo conduzidos por toda a África. A luta contra os homossexuais toma um grande espaço na mídia e encobre discussões de assuntos importantes, como o combate à pobreza ou à AIDS, que devastam o continente. O Zimbábue tem tido políticas semelhantes às da Namíbia, e a comunidade homossexual tem se tornado o bode expiatório dentro dessa região. Os governos locais promulgam a falsa e idiota visão de que através do expurgo de gays e lésbicas ocorrerá o expurgo imediato da doença.
E contra essa onda idiota, gerada pelos governos, encontram-se organizações locais da comunidade, tentando atrair a atenção internacional para essa realidade doentia, e quem sabe, alguma força capaz de parar tais atrocidades. Em Junho de 2000, fundou-se o primeiro escritório oficial da comunidade de gays e lésbicas na Namíbia, na cidade de Windhoek, e no Zimbábue o grupo GALZ ( Gays And Lesbians of Zimbabwe ) vem lutando contra o governo. No Zimbábue ocorreram ataques à imprensa livre, incluindo o incêndio de sedes de jornais simpatizantes, para evitar o apoio da mídia às minorias homossexuais.
No fim, ficamos com a triste realidade de países enfraquecidos por problemas internos, buscando na execração de um bode expiatório um ponto de salvação de seus governos, ofuscando acusações de corrupção e atraindo atenção de questões vitais para um "inimigo invisível". Países em um continente em que, como visto nos jornais de hoje pela manhã, vendem crianças por R$40,00 para traficantes de escravos, que as revendem a cerca de R$700,00 para fazendeiros, e que diante da ameaça de intervenção em seu comércio ilegal e enojante, podem afogar 400 crianças como forma de eliminar provas. Um continente que em plano século XXI nos remete aos mais negros momentos da escravidão no século XVIII. Países que apelam ao ódio e ao medo para liderar nações que se mantém no mapa por laços cada vez mais fracos. E o ódio traz a irracionalidade, assim como o medo. Já vimos tal quadro triste em outros momentos da História, mas dessa vez não vemos o sofrimento de um povo nas mãos de um ditador cruel, e sim a crueldade de uma nação contra seus filhos e filhas. Apenas podemos esperar que uma solução humana possa ser encontrada em um futuro breve para essa situação. E aprender a lição de que, além de lésbicas, as mulheres que sofrem na África são seres humanos como nós, e, não por acaso, mulheres como nós e lésbicas como nós. São nossas irmãs, de certa forma. E que esse quadro enojante pode não estar acontecendo aqui, nem agora, mas não significa que não possa acontecer. E a única forma de evitar que isso aconteça conosco, ou com nossas filhas e netas, é assumir uma posição firme e dizer basta. Então unam suas vozes à minha e digam: Basta.
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