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Relações Públicas
Por Regina Bessa


Nome: Marcella*
Profissão: Garota de Programa
Depoimento a Regina Bessa

Morena, bonita, cabelos longos, seios fartos, lábios carnudos, 28 anos.
Onde me encontrar? Em barzinhos à beira-mar, geralmente frequentados por gringos.
Está parecendo anúncio de classificados de jornal? Nada disso, não me dou a esse trabalho; aliás, nem preciso.
Muitas pessoas perguntam: Como você, tão bonita, culta e sofisticada entrou nessa vida? A resposta é simples: Desemprego.
Parece uma desculpa esfarrapada, mas não é; é a dura realidade.
Até 8 meses atrás eu era gerente administrativa em uma grande empresa na Baixada Santista; vieram os cortes e eu dancei, como diz o outro.
Cansada de enviar aproximadamente 20 curriculuns por dia, com aluguel a pagar, contas básicas de luz, telefone e condomínio vencidas, sem perspectivas, e no auge do desespero, decidi sair para espairecer.
O local escolhido, um bar localizado em um hotel 5 estrelas, próximo a minha casa.
Com o dinheiro contado para no máximo 2 choppe, vesti um belissimo vestido, uma belíssima sandália, me produzi da cabeça aos pés (estava precisando me sentir bonita) e me dirigi ao tal bar.
Lá chegando, pedi um chopp que fiquei saboreando aos poucos. Qual não foi minha surpresa, ao fim deste, o garçom me entregar outro. Disse-lhe que já estava de saída, mas ele insistiu em entregar-me e me informou que já estava pago.
Como? Perguntei...
- Aquele senhor pediu que eu lhe entregasse.
Olhei para o lado e agradeci educadamente, quando o tal "senhor" fez menção de sentar-se comigo.
Convidei-o a sentar-se quando notei que era um "gringo". Australiano, para ser mais exata.
Estava em minha cidade trabalhando na área de telefonia, uma coisa que não entendi muito bem, relacionada a fibra ótica, fios subterrâneos, essa coisas. Enfim, como em toda paquera, ele ficou com o número do meu celular, prometendo telefonar no dia seguinte.
Pasmem, não seguindo o exemplo dos brasileiros, ele o fez. Ligou-me por volta das 20:00 hs, dizendo que estava com um grupo de amigos (todos eles gringos, diga-se de passagem) e perguntou se eu não teria algumas amigas para levar ao bar, para que pudéssemos conversar, beber, jantar, dançar...
Eu disse que sim, mas que naquela hora, provavelmente elas já estariam comprometidas com outras coisas, mas não custava nada tentar.
Liguei para quase todas, arregimentei um grupo e fomos ao encontro.
Muito bate papo, muita bebida, muita comida, muita dança e no final a célebre e indefectível pergunta: Gostaria de me acompanhar até meu apartamento? Lá poderíamos ficar mais à vontade, conversar sem interrupções, blá, blá, blá... Ok, disse, mas depois voltar para casa vai ser meio complicado, visto o adiantado da hora, e eu estar desprevenida para tomar um táxi. BINGO!
Nem preciso dizer que o dinheiro do táxi pagou meu condomínio, luz e telefone, preciso?
Confesso que me senti meio suja, pois sempre ouvimos, desde a nossa mais tenra idade, que prostitutas são as "destruidoras de lares", "transmissoras de doenças" e toda uma parafernália de coisas inenarráveis.
Vendi o meu corpo, sim, não me arrependo, não me envergonho e não me sinto suja.
Sinto-me digna como qualquer gerente de banco, alta executiva ou vendedora de loja chique.
Se perguntarem minha profissão, digo sem pestanejar. Sou Relações Públicas. Afinal de contas, essa não é a verdade?

* O nome da entrevistada foi trocado, para preservar a identidade da mesma.

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