Quarta-feira, Junho 09, 2004

Medo 

Hoje eu fiz a primeira sessão com o psicólogo. Entre várias outras coisas, falamos (pq psicólogo bom, pra mim, é psicólogo que interage) da entrada da jessica no real life test, e de como isso está afetando a vida da gente. Falamos, nesse tópico, especialmente do medo que eu tenho dela sofrer alguma violência por parte de algum crente, jiu-jiteiro, ou outro tipo de maluco qualquer.
 
Aí, agora há pouco, eu entrei no site da Folha, e tinha lá uma discussão sobre a parada gay. E das 3 mensagens que tinha sobre esse assunto no fórum, todas as três eram preconceituosas, agressivas e violentas. O de sempre: Gays são pedófilos, gays são anormais, gays isso, gays aquilo.
 
Sabe, o meu pai era hetero e abusou de mim quando eu tinha 7 anos. A minha mãe foi estuprada por um homem também hetero quando ela tinha 16. A minha tia, quando tinha 21, mais ou menos. Uma amiga minha, quando tinha 23. Outra, quando tinha 17 (todas são hetero). Mais uma, e mais outra, e mais aquela ali... de cada dez mulheres que eu conheço PELO MENOS 6 sofreram algum tipo de abuso sexual grave, daqueles que tem no Código Penal. E todos os homens heterossexuais responsáveis por esses abusos se enquadravam no mesmo tipinho típico brasileiro do homófobo patológico. Inclusive o meu pai, que quando eu fiz 10 anos falou pra minha mãe misturar pílula anticoncepcional na minha comida, antes que eu trepasse com alguém na rua e aparecesse grávida em casa (acho que a minha maior sorte foi ele ficar doente exatamente nessa época).
 
O meu medo é muito grande. Eu sei que a jessica precisa passar pelo rlt pra poder terminar a transição e finalmente viver como gente. Sim, como gente, porque uma mulher que é obrigada a viver como homem não vive como um ser humano, não tem os direitos básicos que qualquer ser humano tem (tipo, ser chamada pelo gênero certo, sabe?). E sei que a gente vai passar por isso, independente do medo. Mas ele é grande... e eu tenho que me controlar muito pro medo não virar raiva, e a raiva não me cegar para o fato de que sim, existe gente hetero decente, não são todos uns filhos da puta que querem matar ou lobotomizar a gente.
 
Ah, e se eu tenho medo de nós duas apanharmos na rua? Claro que eu tenho. Mas eu morro de medo de deixar a jessica sozinha por aí. Porque homens heterossexuais homofóbicos são covardes, e atacar uma mulher sozinha é mais fácil.
 
Tomara que a terapia me ajude.

Domingo, Junho 06, 2004

Ai Jesuis... 

(Este post é um comentário de um post da Perséfone do dia 02/06/2004 às 1:01:57 a.m. Vejam )

Primeiro: é mais fácil pra qualquer pessoa hetero (segundo longas conversas com gente assim e observações do comportamento dessas pessoas) ter seu amorzinho baunilha em casa e só trepar SM por fora do que manter um relacionamento amoroso SM (por mais que este seja sim muito mais satisfatório que o relacionamento SM puramente sexual).

Dito isso, acompanhem o seguinte raciocínio:

Uma Domme que fala numa entrevista à Marie Claire que seu escravo casado não está traindo a mulher dele com ela tem 3 motivos para dizer isso:

1. Ele está pagando. Todo mundo está careca de saber que 90% dos caras que pagam dominadoras profissionais são casados. Por quê eles pagam? Pelo mesmíssimo motivo do Jack Nicholson: pra elas irem embora e não encherem o saco depois.

2. Ela é casada, tem lá o seu maridinho baunilha que faz o papel de provedor da casa, mas, como ela curte SM, pega seus escravos por fora, o marido sabendo ou não. E inventou essa história de que SM não é traição pra justificar as puladas de cerca - até porque essa história toda é simples dedução daquela outra falácia do "SM não é sexo".

3. Ela já desistiu ou nunca quis um relacionamento amoroso SM. Se nunca quis é porque, bom, é foda ser 24x7. Se desistiu, é porque ainda não achou um cara ao gosto dela que queira ser escravo 24x7, pelo motivo acima.

O engraçado da discussão toda é que, pelo que eu entendi, a Perséfone destacou para discussão somente o fato da tal Domme achar que um homem casado que procura uma Domme não é trair a mulher (vide explicação no item 2 acima).

Persê: Dei muita risada da pobre mulher. E achei muito oportuno o que ela falou. Afinal, pela avaliação dela é requisito indispensável pra se trair o(a) parceiro(a) hetero haver coito pênis-vagina, certo? Pena que a repórter que entrevistou (não me dei ao trabalho de ler a entrevista, então, se perguntou, sorry) não perguntou pra ela "Então se o SEU marido tiver um caso com um homem também não configura traição, certo?"?

Aí de repente entra gente nos comentários do post torcendo a coisa toda de volta para a velha mentira do "SM puro é que é bom, só quer SM com amor e sexo quem é imaturo". Será que não está na hora de parar com essa discussão ridícula?

Não consigo imaginar que alguém consiga ter a auto-estima tão baixa a ponto de achar que, se alguém tem um fetiche, tem que obrigatoriamente separar esse fetiche da sua vida afetiva para sempre para ser "maduro".

Desculpe quem se sentir mal com isso, mas quando alguém separa sexo de amor é por total interesse. Ou a pessoa quer curtir o NOSSO prazer e foda-se o outro, ou está trepando com gente que não tem como fazê-la se apaixonar (a.k.a. está se enganando quanto a sua hetero ou homo afetividade). Isso vale pra gente mentalmente sã, que sabe muito bem que essa é uma situação momentânea*.

Infelizmente a maioria das pessoas (mulheres E homens)por aí, ao contrário do senso comum, acha que é absolutamente necessário separar sexo de amor para sobreviver no mundo hetero, assim como acha que parceiro(a) bom é parceiro(a) mais jovem, mais rico(a), mais independente, ou que tem a família certa, enfim, o(a) que pareça mais "socialmente aceitável".

Gente hetero é muito estranha.

*Obs: Sim, momentânea, mulheres hetero incrédulas, inclusive para os homens. Se o cara ficar contigo - pinto na xana ou não - por mais de um mês, é porque ele tem BEM mais que um tesão, uma servitude para com você, portanto, se vocês estiverem só curtindo, mantenham a rotatividade.

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